|
Antes que alguém me ameace com a Lei Afonso Arinos, já adianto que o mulatinho aí do título sou eu mesmo. Em algum lugar do passado (original, hein?) alguma ancestral minha abriu as pernas - espero que de livre vontade e com muito gozo - para um ancestral de outra "raça". Sou mais um produto deste maravilhoso cadinho da miscigenação brasileira.
Não tão mulato a ponto de conseguir, por exemplo, entrar num daqueles blocos baianos cientes da confraternização racial – só entre eles, claro. Neguinho, pra entrar ali, precisa quase de exame de DNA (imagina se acontece um negócio destes entre os branquelos de Santa Catarina, por exemplo: “no 'meu' oktoberfest só entra branco puro de origem”, imagina o berreiro...).
Enfim, baseado no meu lado afro-descendente, eu poderia tranquilamente requerer uma vaga nas quotas que as universidades públicas guardam para os meus primos (primos, sim, quase irmãos, não mantemos em nosso sangue, todos, o pulsar ancestral da mama África?). Quer dizer, posso chegar numa Ueneseiláoque, por exemplo, mostrar o colorido escuro das gengivas para uma geneticista de plantão - Mayana! Mayana! - e entrar no mais concorrido curso de lá. O por quê do exame? Dizem que tem sinais que dispensam DNA, como esse, das gengivas – que só falha em casos extremos de falta de higiene.
Mas de, volta às quotas, dispenso: nunca precisei de apadrinhamento na vida e não vai ser agora, na meia-idade, que vou perder a vergonha (aliás, estou guardando-a para perder na terceira idade, com intuitos sexuais – “velho safado!”, espero ouvir muito).
Como se não bastasse essa idiotice quotista (que se junta à idiotice da universidade pública gratuita - para os muito ricos), me vem agora um deputado propor que toda empresa dedique 20% de seu quadro de pessoal para afro-descendentes. Primeiro, a lei abre caminho para demissão em massa: toda empresa no Brasil, até a Microsoft ou alguma finlandesa, tem um montão de afro-descendentes – talvez uns 60% - entre seus funcionários. Segundo: quem precisa de quota pra se proteger é deputado proselitista. Já adianto para o ilustre político que eu, como afro-descendente, dispenso este paternalismo imbecil. Sou e serei sempre um mulatinho feliz na medida em que puder cuidar da minha vida sem ter político interferindo nela, aumentando imposto, desviando dinheiro, fazendo mais sacanagem com a gente do que os senhores de engenho nas senzalas.
Já que esse povo gosta tanto de quotas, proponho uma: a quota desvio. Todo político teria direito, garantido por lei, de desviar 20% das verbas públicas. Mas só 20%, explicadinho, ali, ó, no Diário da União. Se o desvio ultrapassar a quota, por um pouquinho que seja, tipo 20,00000001%, o político perde uma das mãos, cortada por aquele cirurgião plástico de Goiânia (perder um dedo só não resolve nada).
Ah, ia ser uma beleza, ia sobrar dinheiro que daria pra melhorar bastante a vida de todos nós, afrodescendentes, e de nossos irmãos de outras tonalidades de pele. Aí não ia precisar de governo nenhum ficar dando esmola, em vez de oferecer oportunidade de trabalho.
|