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Ivan e eu
 

Tenho uma fixação pelo Ivan.

Saudável. Minha mãe sabe, e aprova: “Você faz bem em se espelhar nele. Quem dera todos escrevessem bem, igual a este filho do Orígenes...” Desconverso, para fingir que não notei a alfinetada. De vez em quando mamãe se digna a classificar meus textos num padrão que inventamos, a escala ivanlessa de qualidade literária. Parece com a richter, só que vai até o grau dez, hábitos professorais de Dona Anair. Acho que, até hoje, consegui apenas um sete com ela. O resto, varia entre três e quatro e meio. Aliás, acho que ela só deu sete porque comentei com ela que um amigo, Antonio Manoel, tinha elogiado o texto. Como ela adora D. Antonio, mesmo sem conhecer (“como escreve bem ele, né, Paulo Roberto? E parece que nunca precisou ler o Ivan Lessa pra isso”, diz minha santa velhinha, alfinete em riste contra meus pobres balões literários), devo este sete à boa imagem do amigo.

É duro, viu, perseguir ilusões com um critério rigorosíssimo destes a peneirá-las. Às vezes, penso em desistir de literatura. Mas aprendo muito, graças ao olhar implacável, amaciado pelo doce sorriso, de D. Anair. Penso que ela podia mudar um pouco o método de abordagem, ser menos Caterpillar. Dia destes ela me ligou, tinha acabado de ler um texto meu, a decepção escorria da voz da coitada... Não me lembro qual, nem quero. Mamãe ponderou se não seria melhor eu suspender o Vitrine por uns tempos. Discordei. Tenho um prazer imenso em escrever aqui, tenho compromisso com os autores hospedados, tenho que atualizar o site, treponderei de volta. “Quem sabe você não pede ao Antonio Manoel pra ler seus textos antes?” “Ah, mãe, pelo amor de Deus, só falta isso agora...” Ela desistiu, me deu o ex libris, mas disse que, se eu não melhorar, vai passar a me analisar com uma escala espelhada. Como assim, mãe, perguntei. “Se você escrever de novo, vou ter que te classificar numa escala paulocoelho, que começa em -1 e vai até -10...” Eu ri da brincadeira. Ela não riu, mandou um “Deus te abençõe”, que mãe não pode rogar praga, e desligou.

De volta ao Lessa. Na semana passada, liguei pra ela, insuportavelmente feliz. O Ivan tinha escrito, lá de Londres, um texto sobre a morte do ator que interpretava o robô de “Perdidos no espaço”. Cara, eu também tinha feito isso, e com quase 10 dias de antecedência. Fiquei insuportável. Liguei pra Dona Anair e comentei. Ela disse: “Já vi, lá no site da BBC.” Silêncio. Mãe? Silêncio. Mãe, não achou legal? Silêncio. Mãe!!!???
“Legal? Legal? Você leu o texto dele? Viu o tanto de informação que o seu não tinha? Aquilo é que é cultura. Deu até que o ator fumava dentro da roupa de robô! Tenho certeza de que você não sabia disso.” Pô, mãe, mas eu escrevi correndo, de repente, li a notícia, me tocou... “Ah, meu filho, você devia é se tocar e tirar aquele seu texto do site, antes que mais alguém compare...”

Não sei o que seria de minha vida sem mamãe e Ivan Lessa.

 
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