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"Tempo de Carrancismo", novidade no Vitrine
 

No final do ano passado, em dúvida sobre que papel usar em uma capa de livro, o gerente de uma gráfica me emprestou um exemplar de “Tempo do Carrancismo” para eu ter uma idéia de como ficaria o material plastificado e envernizado. Levei o livro para mostrar pro autor. Enquanto esperava, abri numa página qualquer e me apaixonei pela linguagem. Tão bonita quanto uma história é o formato usado para contá-la. Ao mesmo tempo, fiquei assustado: a autora devia ser minha prima, porque a essência das vidas ali é muito parecida com a de outras vidas que conheci ou das quais ouvi falar. Pior: na capa, uma foto antiga, de um homem montado em uma mula (ou será burro? perdi a capacidade de distinguir fora do óbvio), que bem podia ser um tio meu.

Mandei no mesmo dia um e-mail para a autora do livro, Gilda Alves de Brito. Mineira, como eu, mas distantes demais, a minha Itaguara e a Frutal dela. Somos parentes nesta mineiridade que anda se esfacelando, Minas são várias, dizia o Rosa, mas acredito que a maioria das partes dessa Minas sobrevive só mesmo dentro da gente. Convidei a Gilda pra hospedar o livro dela aqui. E é com prazer que a apresento a vocês.

Um trechinho do livro? Lá vai, do comecinho:

“Nasci noutro canto,mas esse é um assunto que não paga palavra gasta, pois se aqui sou estranho, lá também não ocupava categoria. De família, não sei; o Pai embicou os tapumes no brejo, faz muito tempo. A Mãe ficou lá ocupada: uma  hora planta, uma hora reza, outra hora joga praga. Acho que anda esquecida que esparramou gente nesse mundo de meu Deus. Não tenho irmão. Tem mais gente lá nascida da minha mãe; mas não tem em nenhum aquele sentir que faz um doer pelo outro; não existe o querer bem que costuma ser presente entre gente do mesmo sangue. Dizem que irmão é pedaço da gente. Não digo que não. Mas do mesmo jeito que braço e perna, há ocasião que não há como salvar. Se num caso, a voz do sangue fica calada; e no outro caso, a serventia é menor que o dano que causa, há de se escolher o mal que menos vai prejudicar. É doído arrancar pedaço; é muita falta que faz; mas a vida pede caminho e o mundo é grande."

Gilda diz que o livro nasceu da tentativa de fazer o registro do modo como uma comunidade rural se organizava no Triângulo Mineiro, há cerca de cinqüenta anos. Penso que ela conseguiu fazer isso muito bem. E todo mundo que tiver um pedacinho de roça no seu passado com certeza vai gostar da história. E, principalmente, da maneira como ela foi contada.

Saiba mais sobre o livro clicando aqui.

Parabéns, Gilda! Sua bênção, tio Bejinho!

 
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