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A mãe passou mal um dia, dois, mais um. Na terceira tarde, piorou. Botaram no carro de bois, pra levar para a cidade mais próxima. Já escuro, uma das filhas vê lá longe, numa curva, o lampião colocado no carro. Acompanha até que a luz some. Apaga sua lamparina na janela da casa imensa e silenciosa, e vai tentar dormir. Será que a mão volta?
Essa história é de verdade, aconteceu com minha mãe, a filha, e com a mãe dela, que voltou. Mamãe me contou uma dezena de vezes a angústia que sentiu naquela noite. Horas depois de vovô ter saído, guiando bois e carro, a luz surgiu ali - tão perto, tão longe, naquele alto de estradas se enrolando em si mesmas – e sumiu de novo, para um estirão que só ia terminar de madrugada. A distância entre a cidadezinha de minha mãe e a que era antiga sede do ex-distrito não chegava a 20 quilômetros. Mas naqueles idos de 1940, era lonjura demais.
Me lembrei desta história não só por causa dos livros da Gilda e do Clóvis, de que falei antes. Mas também porque a tv a cabo, que garante pra gente também o telefone e a internet, acabou de dar um piripaco aqui. Minha filha adolescente, duas frações de segundo depois, entrou na sala em pânico: “liga pra lá, toma o meu celular e liga pra ver o que está acontecendo!” Fui incapaz de acalmá-la, parece que a alta voltagem hereditária ganhou carga extra nesta nova geração. Enquanto eu ligava, tudo voltou – alegria! – e caiu de novo em poucos minutos – pânico!
Pensei em contar pra ela esta história da avó e da bisavó dela. Perda de tempo. É um mundo inimaginável, hoje. Mais fácil acreditar nos vampiros teens de Crepúsculo (é bom, hein, o livro!) que tentar assimilar as trevas em que vivíamos até poucas décadas atrás (no início dos anos 70 uma ligação telefônica para Belzonte, a apenas 100 km, podia levar um dia inteiro para ser completada – e, algumas vezes, cair no primeiro “alô”, pra recomeçar a maratona de conexões manuais via telefonistas).
Minha avó já foi, minha mãe, coitada, anda levando bordoadas do Alzheimer, mas se depender de mim aquele carro de bois sumindo na curva nunca vai desaparecer. E juro que, no dia em que eu fizer minha primeira viagem por teletransporte – tá perto, tá perto – , vou dedicá-la àquela luzinha no escuro.
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