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J. D. Salinger ganhou fama extra por se manter calado durante décadas. É provável que isso tenha ajudado a manter acesa a mítica imagem de Holden Caufield, talvez o mais famoso adolescente já criado na literatura mundial (não, Potter não, estamos falando de li-te-ra-tu-ra). Mas H.C não precisava disso.
“O apanhador no campo de centeio” foi lançado em 1951, lá nos EUA. Saiu aqui com uns 10 anos de atraso. Eu o li pela primeira vez lá pelos 12, final dos 60. Fiquei insuportável: tinha achado, prontinho, um modelo em que espelhar minha rebeldia contra os limites de uma cidadezinha do interior. Reli mais umas vezes: o livro continua muito bom. Minha filha, de 16, leu uns pedaços, no ano passado, trabalho de escola. No começo da semana pegou de novo, pra ler completo. Ou seja, o livro ainda aguenta mais umas décadas.
Salinger morreu na quinta, dia 28. Só fiquei sabendo ontem à noite. Fiquei chocado, mais do que com a morte (não vamos todos?), com a minha ignorância sobre ela. Sempre achei que ia ter um troço quando o criador de Caufield fosse embora. Mas parece que já estou começando a acostumar com os vazios...
PS: Mãe Irene, minha benzedeira de confiança, que trança à vontade por entre os mistérios de duas ou três religiões, fora as doutrinas, passou na rua há pouco, entrou pra um cafezinho, perguntou o que eu estava fazendo... Contei pra ela a história do escritor. Mãe Irene foi gentil: “passa lá no centro logo, dou um jeito de você conseguir falar com ele.” Vou não: já pensou se o Salinger baixa mesmo, fica puto, resolve se incorporar em mim? E me puxa pro ostracismo, sem ter publicado nada ainda? Tofu...
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