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Guimarãezices
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010, 09:30
 

Tem dias em que me sinto tão pronto para ir que é como se ido já tivesse. Acabei de reler “A terceira margem do rio”, do velho Rosa. Quem é mineiro, nascido num oco rodeado de serras e grotas, é capaz de apreender ali os temperos tristes daquelas palavras. Sem desmerecer ninguém, claro, os apaixonados de tudo enquanto é canto. Um exemplo na cozinha pra definir o que sinto: eu sonho em algum dia comer trufa negra. Não tenho a menor idéia do gosto, do cheiro, de nada. Mas algo em mim diz que vou adorar. Pode ser que eu caia de joelhos, sei lá. Só que, na mesa ao lado, um italiano pode estar comendo a mesma trufa, e tendo um prazer inalcançável para mim, temperado pelas lembranças dele. Deu pra entender?

Lembranças. Acho que é este o tempero que me faz olhar com superioridade meus amigos neste sertão paulista, colegas na paixão pelos escritos do Rosa. Um deles me fez ter, dia destes, um ataque de inveja. Fiquei roxo, púrpura, quis deixar de lado o aniversário e ir embora, ao ver, na parede da sala dele, em letras imensas e lindas, o texto completo do “A terceira margem...”. Coisa de uns dois metros e meio de altura, legível, lindo, preto no branco.

Nessa hora me refugiei na superioridade de mineiro antigo: “preciso disso não, tenho isso escrito na alma...” Claro que não, e no dia em que tiver parede à altura vou copiar a idéia.

Ah, as lembranças... Cada página do Rosa gera em mim umas outras duas, de rodapés. Nasci numa cidade em que ele morou, e penso comigo mesmo que, sem o que conheceu lá, ele nunca teria sido quem foi. Em “Sarapalha”, ambientado nos Vilelas, um povoado que poderia ter sido a sede do município, não fosse a maleita, enquanto eu leio minha mente desce devagar o rio Pará, lerdo e barrento, com suas praias em curvas sombreadas, onde já pesquei bagres em tardes quietas, pajeando meu irmão caçula. Em “A terceira margem...” revejo o São Francisco, sinto cheiro de pequi, relembro sotaques: ma’moço,  “os tempos mudam, no devagar depressa dos tempos”.

Releio “Grande sertão”, sempre, a memória arfante de cheiros e cores e formas que vivi na infância, meus tios eles próprios vaqueiros montados em cavalos e burros lindos, cheiro de couro, estrume fumegando no chão do pasto geado, silhuetas bovinas recortadas no céu vermelho do entardecer, sabiás clamando por chuva nas cavas fundas, cozinhas cheirosas de sopa de fubá com couve rasgadas e lingüiça ou costelinha, os fornos a parir biscoito e roscas e delícias infindáveis.

Tem dias em que sinto que só vivo por meio do velho Rosa.

 
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