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"Livro tem que ter charme, né?"
 

Ela mantém uma relação extremamente prazerosa com a literatura. Prazer não só dela, mas também de quem tem a sorte de descobrir algum dos livros da Malluh Praxedes. Eles não são muito fáceis de encontrar. A relação da Malluh com a literatura – coisa já de 25 anos – busca caminhos alternativos (sem preocupações com “independência” ou “marginalidade”). Ela tem 11 livros publicados, todos por conta própria.
Nesta entrevista, um pouquinho das histórias destes livros. Se gostar da conversa, pode ter certeza de que vai gostar deles: ela escreve assim, do jeito que “fala”. E pode se considerar com sorte: pelo menos dois livros da Malluh Praxedes (“Se assim sou” e “Mulheres na Linha”) você encontra aqui no Vitrine Literária.

O primeiro a gente nunca esquece... Como foi o seu primeiro livro publicado por conta própria?
Foi muito excitante... Eu tinha muitos diários guardados, recheados de poemas, letras de música e mensagens “sofridas”, tudo muito divertido. Também já escrevia poemas, contos e histórias que eu achava que já era um “pequeno romance” ou novela.
Aí quando comecei a trabalhar, datilografava e mostrava pros amigos mais próximos. Eles escreviam no que liam: lindo! Adorei! Esta frase está demais!!! Um dia pedi a um amigo pra selecionar naquelas pastas de “contos”, “crônicas” e “poemas” o que ele considerava melhor. Era meu colega de trabalho, o Fernando Fabrini quem escolheu os melhores e passou pro chefe dele,  Renato Reis, gerente do Departamento de Comunicação do BDMG que me disse um dia: - Tenho um cunhado que precisa editar um livro pra ver se consegue “alvará” pra transformar sua gráfica em editora, você topa?
Não pensei duas vezes e assim a Gráfica Formato publicou através do seu diretor Franck da Silveira o meu livro “Nascência” e, passou, a partir de então a se chamar Formato Editorial.
O Fabrini fez a capa, com foto de Marcelo Prates e foi considerado um belo livro pelo dono da Van Damme (um livreiro que tem a livraria das mais respeitadas de Belo Horizonte), que o colocou na vitrine da Rua da Bahia, por uns bons dias. Pra mim foi inesquecível.

Por que esta posição de publicar você mesma?
Quando eu fui editar o “Nua Manhã de uma Mulher” em 1983, procurei duas editoras e elas me falaram muito calmamente que poesia não era literatura, que se fosse um livro de contos... Saí das entrevistas indignada e pensei (eu tinha acabado de ganhar um prêmio na Argentina, onde “jurei” perante uma platéia de 300 pessoas que eu jamais deixaria de publicar meus livros): - Lá vou eu novamente... Fiz um acordo com o Júlio Pena, da Rona Editora e ele “segurou a barra”. Paguei somente depois que lancei o livro. Este livro esgotou em três meses, foi meu recorde.
Roberto Drummond fez o prefácio e meu irmão Sylvio saia vendendo na noite. Vendeu tudo pra mim. Foi uma maravilha. 

Qual a maior dificuldade que você enfrentou?
Lançar “A Menstruação da Ascensorista”. Foi um inferno. Em 1993, imagina, eu não conseguia local para o lançamento por causa do título. Dá pra acreditar??? Foi uma loucura, todos abriam seus espaços, mas ao tomarem conhecimento do nome arrumavam uma boa desculpa e pronto... Um dia, conversando com o Adyr d’Assumpção, um ator/produtor de teatro e que naquela época era o dono da livraria do “Belas Artes Liberdade” – um espaço multicultural – cinemas, livraria e galeria de arte, e contei ao Adyr o sufoco que estava passando e ele, que acabara de inaugurar a livraria me estendeu o tapete. Literalmente: - Pois você terá um tapete vermelho te esperando. E foi um sucesso, apesar da própria imprensa evitar de citar o nome do livro em suas matérias.
Acabei sendo procurada pela revista Claudia, pela Isto É Minas e foi um sucesso. Até hoje é o meu livro mais citado na mídia.

Qual a maior dificuldade que ainda enfrenta?
Uma dificuldade mesmo? A distribuição. Sempre vendo nos lançamentos, viajo pra cá e pra lá e depois deixo literalmente nas livrarias e quase nunca volto pra saber se vendeu ou não. Mas vou vendendo devagar... E só isso basta pra que eu continue tentando sempre.

Você já conseguiu patrocínio? É difícil? O que normalmente as empresas pedem em troca?
Sempre tento fazer algumas parceiras. Procuro gráficas, empresas diversas e acabo conseguindo apoios diversos. Ultimamente faço venda antecipada, o que acaba “garantindo” um retorno no investimento.

Qual a tiragem média?
Sempre faço 1000 exemplares. Suspiração, de 2003, fiz 500 porque o livro ficou muito, muito caro. E o livro é praticamente artesanal, feito de uma maneira que além de tempo, precisou de muita habilidade para a finalização.

Compensa, financeiramente?
Sim. Apesar de não dar lucro, não dá pra ter prejuízo.

No geral, seus livros têm saído do jeito que você gosta? A gente vê que são livros com projetos gráficos ousados, e com um resultado final muito bom. Como é que você consegue?
Primeiramente porque adoro ousar mesmo. E tenho amigos que são um “colosso”. Fernando Fiuza, fotógrafo e artista plástico (meu parceiro desde 1993 – já fizemos 8 livros juntos) e Otávio Bretas, programador visual (estamos completando 5 livros juntos) são duas pessoas maravilhosas que me ajudam o tempo todo. Passo uma idéia e eles apostam junto comigo. Passamos noites acordados fazendo planos e montando esboços. É muito divertido e gratificante.

Qual o grande acerto nos livros?
A plasticidade. Livro tem que ter charme, né? Se você pega um livro e ele é meio “capenga”, não dá. Veja os livros do Chico Buarque, acho todos lindos e excitantes, acredita? Pois então, quero sempre fazer bem feito. 

Qual foi o que menos deu certo, entre o que você queria e o que saiu?
Foi o que fiz para um restaurante de Belo Horizonte, que quando completou 10 anos me contratou para escrever a história do Chico Mineiro. Fizemos meio na carreira, os patrocinadores não quiseram investir muito, achei que faltou charme no acabamento final.
 
Como é o seu processo de publicar um livro? Poderia dar uma dica pra gente dividir com outros autores aqui no Vitrine?
Claro. Eu comparo com gestação. Fico ali escrevendo, escrevendo... de repente, ah! Não dá mais pra segurar. Pronto, tá na hora de publicar. Aí passo noites e noites remoendo um nome pro livro. Depois monto “um livreto” e começo a andar com ele, passear com os escritos e vou mostrando os amigos. Esse processo pode consumir dois anos da minha vida. Aí as pessoas começam a perguntar: - quando sai o próximo livro? De repente eu sinto que chegou a hora de “parir” e começo a trabalhar na produção.
O próximo livro “Beijos de Acender o Dia” está pronto há dois anos. Agora é que senti firmeza. Não mudei nada, nem uma linha sequer desde que ficou pronto em 2003. Mas só agora tive condição financeira e emocional para publicá-lo.

Se você recebesse hoje um telefonema da Sextante, a editora que publicou “O Código Da Vinci”, pedindo um dos seus livros para publicar, qual seria sua reação?
Sinceramente? Não sei. Nem quero pensar nisto, sabia? Não estou preparada, eu acho.

E qual você escolheria?
Dos meus livros? Ah! “A Menstruação da Ascensorista”, que está esgotado é um livro muito “enxuto”. Tem um formato delicioso, é dos meus livros preferidos. E “Suspiração” que é outro que eu amo de paixão!!!

O que mudaria na sua relação com a literatura se este livro (o da Sextante) vendesse 250 mil de cópias?
Ah! Ficar famosa assim de repente? Deixar de escrever, não vou. Deixar de levar minha vida do jeito que levo, fazendo mil coisas, atropelando a mim mesma, também não quero. Gosto de viajar, conhecer pessoas. Adoro música e conviver com a música que se faz pelo Brasil – sou produtora também... nossa, receio que a mídia venha pra cima, querendo sufocar a vida da gente. Adoro meus instantes de quietude... Estes são plenos. A fama assusta, acredito eu.

 
“Quem publica é dono.”
 
Mostramos o pau com que vamos matar a cobra!
Livro é tudo caro mesmo? Ou dá pra publicar sem vender a alma?
40% das distribuidoras, 40% da livraria... Fuja dos percentuais sem retorno garantido!
Tá tudo digitalizado, por que então com livro não?
 
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