Escritora, dramaturga, historiadora, filósofa e doutora em literatura brasileira, Guiomar de Grammont viveu agora em novembro momentos de musa para quem busca novos caminhos no mundo dos livros. Deu declarações “atrevidas” aos jornais: “Queremos que a boa literatura tome o lugar dos vendedores de falsas esperanças.” “Os autores vêm para cá, mas eles são só a mediação entre o próprio trabalho e o público. O que importa é o livro.”
É preciso muita coragem pra dar a cara a tapa desse jeito, nesses tempos de nova idade média (ou novidades médias, salve Cazuza) em que vivemos. Guiomar teve coragem de sobra. Respaldada por uma bagagem à altura: além daquilo tudo lá em cima (o doutorado foi na USP, seguido de estágio na École de Hautes Etudes em Sciences Sociales de Paris), já tinha organizado diversos congressos nacionais e internacionais quando concebeu e coordenou o I Fórum das Letras de Ouro Preto.
Quando fala de literatura, Guiomar não tem só o respaldo das universidades, tem outro com valor igual ou maior: seus próprios livros e peças. Vamos a mais um pouco do currículo? “Obteve, em Cuba, o "Prêmio Casa de Las Americas 1993", com o livro de contos: “O fruto do vosso ventre”, publicado em espanhol, pela Casa de las Américas e, em português, pela editora Maltese. Foi premiada com a Bolsa da Fundação VITAE de Artes de São Paulo, no ano de 1992. Publicou em 2001, pela Editora Giordano, de São Paulo, o romance “Fuga em Espelhos”, produzido sob o patrocínio da Vitae,. Em 2002, publicou o livro bilingüe “Caderno de Pele e de Pelo / Cahier de Peau et de Poil”, em edição própria. Em 2003, publicou o ensaio “Don Juan, Fausto e o Judeu Errante em Kierkegaard”, pela Catedral das Letras, de Petrópolis. Em teatro realizou “Medéias” (semi-finalista no 2° Festival de Novos Humoristas da ABN), “Olympia” (considerada pelo Estado de Minas a melhor peça de 2001 encenada em Belo Horizonte),“Ele: o Outro” (2002), “TABU” (2003), “Lírios”, adaptação de textos de Fernando Bonassi e Guiomar de Grammont (2004).”
Mas chega de falar dela, vamos deixá-la falar. A entrevista foi feita por e-mail:
Quando planejou o Fórum, você imaginava que ia dar essa repercussão toda? Saíram matérias diárias nos grandes jornais nacionais, e o JB on line abriu o “Café Literário” para vocês. Sem desmerecer o seu trabalho, a gente sabe que isso é uma coisa rara, só voltada para os grandes eventos cheios de estrelas multimidiáticas. Será que a própria imprensa anda meio cansada destes “circos” e resolveu apostar na sua proposta? Bem, a repercussão também nos surpreendeu agradavelmente. Acho que pode ser que a imprensa tenha sede de mais profundidade e conteúdo, como todos nós nesse mundo tão superficial em que estamos vivendo hoje, mas não devemos nos iludir, ainda há uma fascinação pelas personas midiáticas e também tivemos algumas presentes no evento, felizmente, estas, eram também bons autores.
No geral, como você avalia o espaço que a grande imprensa reserva para a literatura? Acho muito pouco. As revistas mais importantes do país dedicam um espaço mínimo e os jornais costumam (ainda!) dar muita atenção para autores estrangeiros e pouquíssimo espaço para novos autores. É quase impossível começar. Além disso, como em outras artes, há uma espécie de autoridade da crítica, que acaba estimulando ou desestimulando autores, nem sempre com critérios de qualidade das obras. É meio cruel e aleatório: quem já é famoso vira escritor com facilidade e é dificílimo para quem ainda não chegou lá.
O que se publica hoje no Brasil é realmente o que há de bom? Ou existem muitos autores, inéditos ou não, espalhados por aí? Acho que te respondi um pouco na questão anterior. Nem sempre o que se publica é o que vale à pena e muitos ótimos autores ficam tão relegados ao esquecimento que acabam parando de produzir ou produzindo menos. Também é uma área onde parece haver muita vaidade e, talvez por não ser um tipo de produção tão cara, multiplicam-se as obras realmente sem nenhuma qualidade literária, no que, aliás, não vejo problema. O tempo dirá o que é realmente interessante.
Qual seria o caminho (além do Fórum) para estes autores? Acho que, hoje, todo autor pode produzir seus próprios trabalhos e ser lido. Pode ser até pela internet, porque não? Como disse o Plínio Martins, editor da Ateliê, todo autor pode e deve fazer esse investimento em si mesmo, se acredita em seu próprio trabalho.
Foi realizada recentemente em São Paulo a 3ª Primavera do Livro, reunindo mais de cem pequenas editoras. A Associação delas diz que é muito difícil disputar espaço com as grandes (seriam apenas 1.500 pontos de venda para cerca de 3.000 empresas) e que as redes maiores, como Saraiva e Siciliano, só vendem best-sellers, além de cobrarem 55% de comissão sobre o preço de capa. Você vê alguma saída para esta situação? Acho que o caminho esta na cooperação mútua entre elas para promoverem suas obras e autores e também no investimento coletivo na formação de novos leitores e na pressão para que as políticas públicas contemplem essa necessidade, sobretudo no aumento e ampliação de bibliotecas públicas e das ações para estimular a leitura e a produção literária.
O Galeno Amorim andou prometendo muito para este ano. Você acha que estas iniciativas podem realmente mudar a situação? Acho. Se tudo o que foi prometido realmente for implementado, teremos dado um grande passo nesse sentido.
O governo Lula isentou as editoras de uma série de impostos, que a princípio permitiria livros a preços menores. As empresas prometem a redução a médio prazo. Será que isso vai ocorrer? Espero que sim, mas não temos como prever.
Você mora em uma cidade com um acervo riquíssimo, e já deve ter sofrido muito com as agressões por que Ouro Preto passou. O que você achou do sumiço de quase mil fotos, desenhos e gravuras da Biblioteca Nacional? Acho um absurdo que ocorram episódios como esse, e o mais grave é a falta de consciência que as pessoas têm da importância de seu próprio patrimônio e de quantos trabalhos valiosos para a coletividade brasileira poderiam ser realizados com essas fontes, hoje perdidas. Falta consciência do bem comum. Em Ouro Preto, desenvolvi um programa de educação de multiplicadores de conhecimentos sobre preservação, chamado Guardiões do Patrimônio, com apoio da UNESCO e do Monumenta, para contribuir para a formação dessa consciência.
Voltando ao Fórum, o que você desejaria ver de novo no ano que vem? Bons debates sobre temas interessantes. Foi deliciosa, sobretudo, a mesa sobre crônicas, mas espero estar sempre investindo em novas discussões e possibilidades.
Houve alguma coisa em especial que precisaria ser melhorada? Sempre é possível melhorar. Diria que temos que preparar melhor os mediadores para que as discussões sejam mais proveitosas. O mediador precisa conhecer em profundidade a obra dos autores da mesa e instigá-los com perguntas interessantes.
Já pensou na data do segundo? Seria entre 15 e 19, para aproveitar o feriado na quarta? Estou pensando no feriado de Finados, numa quinta-feira, propiciando com mais facilidade o deslocamento para Ouro Preto, pois a sexta ficaria livre.
Quando é que você começará a estruturá-lo? Já estou começando a pensá-lo, pois é preciso começar agora para trazer autores estrangeiros de peso.
Qual foi sua sensação ao ir dormir na noite do dia 15? Estava muito feliz, apesar de extremamente cansada e já com muita saudade das pessoas que revi e daquelas que fiquei conhecendo no evento. Fiquei com um sabor de quero mais, muito forte, em mim.
E o primeiro pensamento ao acordar no dia 16? Já comecei a fazer listas de autores a trazer e a imaginar como atrair os que já tinham vindo. Enfim, já estou no ano que vem e espero que seus leitores também já estejam com expectativa sobre o que faremos em Ouro Preto no segundo fórum das Letras, em novembro do ano que vem.
|